A exploração da atenção pelos algoritmos foi comparada por Peter Schmidt ao método de extração de petróleo e gás conhecido como fracking, durante entrevista ao programa Roda Viva. Escritor e ativista norte-americano, Schmidt faz parte do coletivo internacional Friends of Attention (Amigos da Atenção) e é integrante da Strother School of Radical Attention (Escola da Atenção Radical), criada para estudar e defender a atenção humana diante das tecnologias digitais. Segundo o pesquisador, as plataformas fragmentam deliberadamente a concentração dos usuários para prolongar o tempo de permanência e transformar essa atenção em receita publicitária. Na sua avaliação, esse “fracking humano” compromete a percepção coletiva da realidade ao inundar os usuários com estímulos e favorecer conteúdos que despertam raiva e reações impulsivas.
Schmidt afirmou que a noção popular de tempo de atenção reduz a compreensão da atenção humana a uma métrica criada originalmente para medir atividades de combate. Em contraposição, resgatou o conceito de attensity para defender uma visão da atenção ligada à reflexão, ao afeto, à imaginação e à contemplação. Nessa perspectiva, classificou a atuação das grandes empresas de tecnologia como “colonialismo atencional”, por tratar a mente humana como um território a ser explorado e monetizado.
Questionado sobre possíveis soluções, Schmidt diferenciou a tecnologia do modelo de negócios das plataformas e rejeitou a ideia de abandonar as ferramentas digitais. Para o pesquisador, o problema está na forma como elas são projetadas. Entre as medidas defendidas estão ampliar a educação para o uso das plataformas e recuperar espaços de convivência presencial. Nesse contexto, considera que parques, escolas, centros culturais, rodas de samba e o Carnaval podem funcionar como espaços de atenção compartilhada.
Schmidt também defende uma regulação mais rigorosa das plataformas digitais e avalia que a inteligência artificial tende a intensificar a disputa pela atenção. Ao mesmo tempo, acredita que a proliferação de conteúdos sintéticos poderá ampliar a valorização das experiências artísticas e das relações humanas presenciais. Na visão do pesquisador, esse movimento depende da recuperação da atenção como experiência compartilhada, por considerar que ela é indispensável para a convivência e os vínculos pessoais.
